na catraca

7.02.2007

Style Wars

São Paulo, 2007.
Este que vos fala nasceu em 1982, e um dia me contaram que, desde essa época, os problemas são iguais, os estilos continuam os mesmos.
Bom, pra que você me entenda, vou começar do começo. Domingo passado, na Revista da Folha, o repórter João Wainer escreveu uma reportagem sobre o fato da prefeitura, ou a empresa que trabalha para a prefeitura fazendo a limpeza urbana, estar apagando alguns graffitis, inclusive alguns dos grafiteiros com maior representatividade na cidade, Os Gêmeos. Algumas pinturas foram apagadas cerca de 16 horas após serem concluídas.
Essa matéria falava também sobre a lei Nº14.451, chamada Programa Antipichação da Prefeitura de São Paulo, elaborada no ano de 2005, que está prestes a ser aprovada pela prefeitura. Por último, citava um caso similar em NY, onde a empresa ECKO processava a administração estatal por aprovar uma lei que proibia jovens com menos de 21 anos a portar latas de spray, na intenção de coibir o graffiti na cidade. O processo funcionou e a lei caiu!
Para que todos tenham idéia do conteúdo da lei, coloco aqui um trecho da explicação contida no site da prefeitura. O link está disponível neste texto de 25 de junho de 2007: “A Prefeitura de Sâo Paulo instituiu o Programa Antipichação no Município de São Paulo (Lei nº 14.451, de 22/6/2007), que estabelece a recuperação de fachadas de imóveis públicos e particulares que forem pichados. Com a nova lei, a administração municipal vai executar serviços de limpeza e pintura para reparar muros e fachadas, podendo, para isso, firmar parcerias com a iniciativa privada. A lei será regulamentada em 60 dias”.
Graffiti ou Pichação
Tanto faz! Graffiti ou pichação são, na minha opinião, uma forma única de expressão baseadas em um preceito:ATITUDE!
Ambas são ferramentas de expressividade de uma cultura urbana, ou urbanoautóctone para ser mais preciso. Não é porque os códigos de um movimento não podem ser decifrados por uma parte da população que eles perdem sua legitimidade. Tantos eventos culturais, museus, festas e festivais têm suas atividades garantidas pelo poder estatal, e privam a maioria absoluta da população de seu acesso. Mesmo obras de arte públicas, consideradas patrimônios culturais, têm em seu significado uma incógnita para boa parte de quem convive diariamente com elas pela cidade. Nunca se discutiu democratização da arte para instalar uma escultura ou fazer uma pintura em âmbito público.
A compreensão universal é uma piada. E se apoiar nesta idéia para limitar a expressividade de um movimento que pensa a pintura, que socializa o pensamento de uma ocupação da cidade, e que tem em seus representantes conhecedores inquestionáveis da mesma, é que deveria ser considerado um ato criminoso.
Não é novidade que o governo, seja em terras tupiniquins ou estrangeiras, não tenha nenhuma sensibilidade para reconhecer um movimento cultural dentro do campo que ele administra. As palavras do secretário da coordenação de Subprefeituras de São Paulo, Andrea Matarazzo, ilustram isso: "Não sabemos o valor do grafite, e imagino que ninguém na prefeitura saiba". A atitude do prefeito de NY também faz parte desta lista de trapalhadas. Porém, por lá alguém conseguiu representatividade suficiente para derrubar esta medida de pouca inteligência.
A falta de noção sempre se refletiu em dificuldades e restrições aos produtores de cultura, mas isso nunca fez com que os artistas recuassem e deixassem de produzir suas obras, e não há de ser agora que uma lei conseguirá isso.
Em São Paulo, os últimos anos têm sido mais tranqüilos para pintar. O número de grafiteiros brasileiros aumentou, e estes têm tido larga aceitação pela população, e também pelos circuitos artísticos nacionais e principalmente internacionais. No início da década, a prefeitura apostou em um plano chamado São Paulo Capital Graffiti, em parceria com a ONG Projeto Aprendiz, que rendeu muitos muros novos pela cidade, e uma melhora significativa na qualidade dos artistas. A exposição d´Os Gêmeos na galeria Fortes Villaça foi a exposição em uma galeria particular maisvisitada da história brasileira, e só aconteceu após o reconhecimento destes irmãos no exterior.
Nem assimalguns governantes abandonaram sua visão tacanha e conservadora para dar alguma atenção ao assunto.
Tendo isso em vista, deixo este canal aberto para todos os que gostariam de participar da discussão, e deixo registrado também que envio este texto/opinião para o e-mail divulgado pela Revista da Folha na matéria: grafite@folhasp.com.br. No mais, só posso contribuir com minha atitude. Vai um piece que fiz hoje para reforçar nossa infantaria. Se você fez um graffiti que proteste contra esta medida, mande para nós. Se houver representantes suficientes, farei um post por aqui com as imagens.
Para finalizar, deixo a indicação do filme que dá nome a este post. Style Wars, do diretor Tony Silver e do produtor Henry Chalfant. É a base para entender o que é o graffiti hoje, e torna nítido o quanto este problema não é novo.
Keep Bombing... Abrax, MTH

5 comentários:

Thomaz disse...

bela argumentação, hein! tem aula de retórica nas plasticas???
abs!

Pixote disse...

cara foi muito bom vc ter levantodo esse tema aqui, venho aconpanhando seu Blog a um tempo, sou Graffiteiro e tbm venho sofrendo com essa medida infeliz da prefeitura. no meu blog tem alguns trabalhos e tem um que fiz para o Kassab. só penso uma coisa o Graffiti acima de tudo é atitude e resistencia. então seremos vitoriosos mais uma vez. abrz

M. disse...

Sei que é difícil. Respondam essas medidas ignorantes com criatividade. Aqui um link legal. Grafite com água e sabão.

http://symbollix.com/main.html

Fábio Santos disse...

Não existe nada pior do que "Cidade Limpa" onde tudo é cinza e desumanho. É uma pequena demosntração do senso de cultura que o paulistano tem: cultura é o que tá exposto na merda do Ibirapuera, o que o cara tá tocando no Teatro Municipal, esse tipo de coisa. O resto é coisa de vagabundo.
Nem me importo, eu sou vagal mesmo.

Fábio Santos disse...

Não existe nada pior do que "Cidade Limpa" onde tudo é cinza e desumano. É uma pequena demosntração do senso de cultura que o paulistano tem: cultura é o que tá exposto na merda do Ibirapuera, o que o cara tá tocando no Teatro Municipal, esse tipo de coisa. O resto é coisa de vagabundo.
Nem me importo, eu sou vagal mesmo.